Uma situação alarmante de intolerância religiosa envolvendo a professora Sueli Santana, da Escola Municipal Rural Boa União, localizada no distrito de Abrantes, tem chamado a atenção pela gravidade e persistência. A educadora relata que, há meses, vem enfrentando ofensas recorrentes no ambiente escolar, incluindo ser chamada de "feiticeira" por alunos e confrontada dentro da sala de aula com Bíblias trazidas pelos estudantes.
Nesta quinta-feira (21/11), a professora procurou as autoridades e registrou a denúncia na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), buscando medidas que assegurem sua segurança e o respeito à liberdade religiosa, garantida pela Constituição Federal.
Segundo a professora Sueli, os episódios começaram no início do ano. Mesmo após comunicar o caso à direção da escola e à Secretaria de Educação (Seduc), a situação não foi resolvida. “Ao longo dos meses, a situação piorou. Cheguei à sala e encontrei versículos bíblicos escritos no quadro. Fui chamada de 'macumbeira', 'demônia' e outros insultos. Minha autoestima foi destruída, e passei a ter crises de ansiedade só de pensar em entrar na sala de aula. Fui duramente perseguida e procurei ajuda tanto na direção quanto na Seduc, mas nada mudou. Foi conversando com amigos e orientadores que percebi que estava sofrendo de intolerância religiosa”, relatou.
Reuniões com pais e responsáveis foram realizadas para tratar a situação. De acordo com a professora, alguns responsáveis minimizaram o problema, afirmando que o ensino da cultura de matriz africana não seria relevante na série escolar, mesmo com a Lei nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio. Apesar das tentativas de diálogo, os ataques seguiu, sem alterações no comportamento dos estudantes.
Ismar Lázaro Lima, coordenador da Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro (Fenacab) e conhecido como Pai Lázaro de Oxóssi, classificou o caso como alarmante. “Estávamos em uma reunião ontem quando nossa irmã Sueli relatou o que estava acontecendo. Ficamos todos chocados com a gravidade das agressões que ela vem sofrendo. Como sacerdote, procurei confortá-la e orientá-la a tomar as medidas necessárias. É fundamental que haja respeito; não podemos propagar o ódio religioso. A convivência em sociedade exige respeito ao próximo”, afirmou.
O caso também destaca a necessidade de uma formação educacional mais ampla, voltada para o combate ao preconceito e ao racismo estrutural, que inclui o respeito a todas as crenças religiosas e também àqueles que não professam religião.
Ana Paula Piton, diretora de Direitos Humanos, Cultura e Diversidade do Sispec e Conselheira Municipal de Educação, enfatizou a gravidade da situação. “O que essa professora enfrentou foi profundamente humilhante. É impossível ensinar sobre matriz africana sem abordar aspectos religiosos, e não podemos mais tolerar que educadores sejam penalizados por cumprir seu papel. Isso precisa acabar”, declarou.
A equipe da reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Camaçari para apurar quais medidas estão sendo adotadas diante das denúncias feitas pela professora, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos retorno.
O caso segue em apuração e novas informações serão incluídas à medida que forem obtidas.
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